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domingo, 15 de janeiro de 2012

A primeira vez que fui chamada de negra.....

A primeira vez que fui chamada de negra eu tinha 19 anos, imagine o susto que eu levei...."como assim? Negra? Eu?? Não, eu sou morena...morena escura, mas não sou negra não". Lembro bem da cara de incrédula da pessoa quando ouviu isso, mas que outra posição eu teria, se até então ninguém nunca teria me dito essa verdade, por achar que ia me ofender?? Eu tinha acabado de chegar em uma cidade maior, com costumes mais cosmopolita, onde as pessoas se sentiam mais livres de padrões sociais, e eu tão acostumada com a cidadezinha do interior, onde todo mundo me chamava de moreninha, e me embranquecia de tal maneira que eu acreditei piamente nessa "verdade", afinal que adolescente ia querer ser chamado de um "adjetivo" que denota tantas coisas ruins, 'desde quando ser negro era bom? Então vamos embranquecê-la!!'Apesar que, os apelidos na escola eram tantos, era Bob (de Bob Marley, por conta do cabelo crespo/cacheado), boca de caçapa (por conta dos lábios volumosos), entre outros. Depois de muito tempo eu fui entender o que tinha acontecido com minha infância e adolescência, tive a minha identidade cultural e étnica roubada por quase 2(duas) décadas, e aceitei, aceitei porque não sabia que existia um outro lado da história, que eu poderia sentir orgulho dela, e quando descobri esse lado da história, fiz questão de ir adiante e mostrar às pessoas que eu tinha descoberto a minha verdade, que de fato eu sou negra, e que não tem problema nenhum nisso, aliás, tem sim, o problema de ser negro é tudo que se sofre quando se sabe que se é, é ser vítima de racismo, racismo esse que até eu mesma, negra, ajudei a procriar, mas mesmo antes de saber da tal "verdade", eu já sofria algumas situações racistas, lembro-me bem das festas, em uma roda de amigas, eu era a última a ser queixada (paquerada), e não era por questão de beleza, mas sim por questão de padrão de beleza, eu fugia às regras, porque bonita eu era, eu sou, não é sempre que tenho coragem de dizer, pois pode soar presunçoso, mas desde criança me achava muito bonita, mas o que eu via no espelho fugia à prática nas ruas, nas festas, nos bares. Quando já estava na faculdade, tive outros conhecimentos, e percebi alguns discursos 'discretos' racistas, dessa vez já tinham coragem de dizer que eu era negra, e diziam e dizem: "Você é uma negra muito bonita"; "você é uma negra muito inteligente". É como se entre as demais negras e negros eu seja exceção, porque não consigo imaginar alguém dizer: "Você uma branca muito bonita ou você é uma branca muito inteligente", alguém consegue imaginar esse discurso? Mas porque com os negros tem que ser dessa forma? às vezes é um elogio à sua pessoa e uma renegação à sua raça, à sua identidade.   Bem, Os bons tempos vieram, me tornei uma pessoa mais consciente e mesmo com toda minha identidade roubada, eu consegui finalmente aceitar quem eu era, quem  eu sou e não aceitei mais a renegação do meu ser (poético até, não é? rsrs), me tornei mais dona da minha cabeça, do meu corpo, e hoje não sinto essa diferença de tratamento mais tão marcante, pois tenho outras ideologias, que a beleza física, apesar de ser bem demarcada, porque vivemos em sociedade que a cultua, não define a verdadeira beleza do ser humano, independente da raça que ela pertença, e com o tempo as pessoas descartam a matéria, porque ela é descartável mesmo. Alguns estigmas ficaram, hoje por exemplo, não gosto de retornar à minha cidade natal, porque as pessoas ainda se assustam comigo, de como eu consegui sair de casa, estudar e trabalhar, pois meu destino havia sido traçado de outra maneira, e eu fugi de todas as profecias cabíveis para mim, e resolvi escrever minha própria história e recuperar minha identidade abandonada.....

4 comentários:

  1. Parabéns Zane! Legal sua iniciativa =)

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    1. Obrigada, Kate!! Em breve terá mais postagens... :)

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  2. Muito legal amiga, fiquei emocionada com suas palavras sinceras!

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    1. Ow Martinha, obrigada por prestigiar meu "desabafo"!!!

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